07/05/2007



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O que se sabe de um sinal vermelho com a sigla STOP bem suja estampada numa rua escura? ---

um crash, de repente um crash e saltei até ao tecto sem trampolim, senti-me noutra galáxia.

A rua estava deserta. do nada, uma coisa cinzenta estava à minha frente.
CRASH.
tudo dentro do meu carro voou, uma coisa cinzenta à minha frente ficou ainda mais coisa.
Um cão gania já com gesso numa pata, uma bebé de colo tinha sido projectada do banco daqueles de bebés de transporte nos carros. uma rapariga de 23 anos sangrava pela anca, diz que pelo air-bag, e um rapaz na flor da idade puxava-me pelo braço, a murmurar no meio dos pescadores que de repente e do anda apareceram," vamos resolver isto à nossa maneira?"
Acordei, pensei muito baixinho para não pregar susto a mim próprio, (tas embriagado, ou tens pressa). Foi então que sugeri: "chamamos os homens das fardas que maior parte das vezes nos intimidam em vez de nos proteger" para resolver-mos isto, "sou o culpado!" e o meu som ali tremeu.

-não, é melhor resolvermos à nossa maneira, retorquiu afincadamente. Toca-me no ombro e sussurrou-me de novo ao ouvido " não tenho carta".
Entendi, entendi parte do propósito.
Sugeri ainda para que fosse ou pedisse a alguém que a fosse buscar a casa,
" Não, não tenho carta mesmo, entendes?"
E mais um pouco do propósito foi entendido.

Eu culpado, assumidamente culpado a ser sujeito a um pedido de misericórdia.
"Arrumamos os carros?", disse-me, "combinado, desde que a bebé e a rapariga; mãe da criança fosse de imediato ao hospital" exigi.

Ouve um telefonema à família toda dos acidentados que os senti ver pálidos como os nossos carros rasgados. E de repente um novo sussurro; "faça lá esse favor, não chame os senhores das fardas, é a segunda vez que é a apanhado sem documento próprio de condução, desta vez vai dentro" disse a mãe da bebé com as mão a trepidar e de boca escondida.
um espirro de lucidez fez-me de todo entender o propósito dos sussurros,
possivelmente, por estar perto de uma série de santos da igreja matriz, ou da minha boa e própria fé aceitei o pedido.
(um táxi chegou e voou ao hospital),
vi o mar, o nevoeiro, senti as ondas, a calma das ondas daquela hora de silêncio contrária à minha.
esperamos, silenciaram-se horas nas vozes, pareceram horas.

o telefone tocou, e alguém disse com a voz calma no outro lado ; "as meninas estão bem, tanto a mãe como a filha já estão a voltar"

inalei as algas todas que haviam li, sentei-me, apertei a mão ao pai da criança que já tinha chegado com uma carta que não a do condutor para a declaração dos seguros.
concentrei-me ainda mais, bebi a luz dos candeeiros bonitos de vila do conde, e fui desenhado num papel duplicado o acontecido: o sujeito A e o B; o A que era eu e o B, o novo e aparecido B era agora o pai da criança.

"onde vive?"perguntei

-"Bairro dos pescadores"disse

engoli um trago de nada,
que bela terra, imaginei , apaixonei-me só pelo nome desse lugar, mas nem o disse por estar compenetrado no desenho dos carrinhos na parte inferior da folha amigável.
as canetas deslizaram assinaturas, até ficou bonita a declaração.

- "quero pagar-lhe um jantar" , "com todo o gosto pagar-lhe-ei um jantar por quem foi connosco".

agradeci, sorri branco por não ter ainda acreditado na sina desta noite, por não estar satisfeito. causei um acidente. uma árvore partiu-se de trsiteza ou do choque , ainda nao sei, a minha matricula e armação bélica da frente do carro voaram. vi muitos pescadores cheios de dúvidas e perguntas. Queria sair dali, engolir até o gaz que se esvazia do meu carro e levitar como um balão, dar um beijo à menina e limpar-lhe as pintas de sangue que lhe tinha surgido na testa, queria vê-la de novo.

-troca-mos números de telefone para marcar o jantar? Questionou o novo B.
-com certeza, mas não precisa de o fazer, disse eu.
- Exijo, foi-me imposto.

Massajava o pulso antes dos cumprimentos normais entre três velhos amigos de 15 minutos o A, o B e o B aparecido; eu, o homem que me murmurou misericórdia e o pai da bebé.

-até um dia destes, será breve diziam-me enquanto esvaziavam da mala toda a tralha que um bebé faz consigo levar.

Arranquei, voei para casa, voei devagarinho por caminhos nunca vistos, flutuava, por nomes de terras escritos nas placas e nunca lidos.

"Cheguei a casa", como foi possível? Sem mínimos, nem médios nem máximos, só com piscas-piscas do género de uma china town qualquer à noite em cidades desertas, assustava as corujas que me esperavam nas alamedas sem a frente do carro. Constantemente, pelo caminho, os outros carros iam-me oferecendo sinais de luz, eram prendas aquela hora, via melhor o meu pulso e a nova decoração do interior do meu carro, como é que o caos pode ser bonito, lá me ia perguntando ao ver livros e coisas que já nem me lembrava de as ver todas aos meus pés.

Tenho agora uma carcaça verde parada à frente da garagem, não entra, alargou.
Parei o motor e atirei-me para cima do volante; revi tudo o que fiz, tudo ao milésimo dos momentos. faltava-me ainda alguma coisa? não cairia em mim sem um último telefonema; ligar ao bairro dos pescadores a custo e a medo.

O telefone tocou, uma, duas vezes, cinco possivelmente até um "olá" do outro lado.
Completaria o que me faltava hoje, uma pergunta que podia ser respondida com mais segurança dado o tempo massacrado da minha viagem até casa.
Um sorriso entendido fez-me babar, " já estão a dormir, está tudo bem, descanse, e mais uma vez muito obrigado."
Ouvia-se o cão a ladrar com atrevimento já por estar no seu pouso de pata ao alto possivelmente, ou por me ter pressentido.

Fechei os olhos, agradeci aos santos da igreja lá do pé e aos pescadores que me iam cravando cigarros em altura imprópria e por me terem distraído com a célebre frase "só foi chapa menino, muito sorte tiveram vocês". Vozes roucas do sal, ainda as oiço.

Desliga-mos a chamada como velhos amigos de uma hora e quinze minutos, respirei ar sem algas, sem nada.
respirei as coisas trazidas à muito escondidas no meu carro. já não as conhecia.

Vou tentar dormir depois de por gelo no pulso.
amanhã penso num valor para a venda do meu carro e ligarei aos pescadores sem querer ser mais uma vez estorvo, perguntarei novamente as mesmas coisas e se o cão já tirou o gesso.

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9 comentários:

Rui Faria disse...

STOP - esse sinal irá sempre ter esse significado para ti?

Marta Pinto disse...

Quem pede emoção num post, tem-na... Passei do 1º parágrafo logo para o fim para ver se tinha o nome do autor que não o teu! Não vi, fiquei preocupada!
...
Pára nos STOPs todos por favor!
...
Fico a pensar se foi vivido ou sonhado? vivido ou sonhado? vivido ou sonhado?

Em todo o caso obrigada pelas imagens no texto.

clica no play disse...

veridicamente vivido:)

Isabel disse...

Que estranho Rui!!

Eu tinha ficado a pensar o mesmo que a Marta. Mas o modo como descreves a narrativa é algo (para mim) entre o belo e o crú, entre o poético e o demasiado real, o que torna o texto (por assim dizer e - como costuma dizer o Faria "digo eu" -) assustador!

Mas agora que sei que aconteceu mesmo, pergunto-te, porque descreveste semelhante acontecimento dessa maneira?

PS.: Fica a pergunta... ou a questão?!?!?!?!

clica no play disse...

aiii essa pergunta é que realmente nao sei responder. possivelemnte por ter sido novidade , por ter feito uma viagem "dessa forma" nunca antes feita.
enfim. nao sei mesmo isabel. aconteceu. possivelemnte tb , por ter ncessidade falar com alguem depois do acontecido e nao ter com quem dadas as horas.


haverão sempre questões que nunca saberemso responder. esta ´e uma delas.:)

Isabel disse...

É mesmo... haverá sempre questões sem resposta... também para termos sempre alguma coisa para questionar não é?!

Do teu texto, uma frase me ficou na cabeça "como é que o caos pode ser bonito".

Espero que estejas bem :)

miguel soares disse...

Vim parar a este blog muito por acaso, e fiquei chocado com este relato. Não sei por onde começou o choque... não sei se foi pelo choque do choque, ou se foi pelo género terno da descrição... contudo, o que me chocou mais não foi mesmo o desrespeito de um STOP nem a ideia assustadora do perigo de tal irresponsabilidade, não foi a possibilidade de cortar a vida a um bebé, nem foi o crash, o salto, a ida até outra galáxia, o que mais me chocou não foi, sequer, o cão que gania de gesso nos gritos, nem o horror da bebé de colo, sim a bebé de colo que foi catapultada da sua cadeira de segurança, nem foi a rapariga dos seus 23 anos a sangrar pela anca, nem foi mesmo o rapaz na flor da idade a fugir ao sistema e cometer ilegalidades, não foi o não acreditar nos outros, e achá-los bêbados, drogados, apressados, nem foi a consciência arrepiante da culpa, não foi a incapacidade de acreditar nos senhores das fardas, nem a possibilidade de "resolvermos a coisa à nossa maneira", nem foi a possibilidade de conduzir sem carta, nem a misericórdia do culpado, não foi a exigência em que a mãe e a bebé fossem ao hospital, nem foi as mãos da mãe da bebé a trepidar, nem a sua boca escondida, não foi acreditar em santos e milagres, nem os desenhos de A e B e fulano e cicrano, não foi sequer a estética de uma declaração amigável, a formal, nem a troca de um jantar por uma ilegalidade, nem a árvore que partiu de tristeza; o que mais me chocou não foi sequer conduzir sem mínimos, nem médios, nem máximos, só com piscas-piscas, nem a carcaça verde alargada; o que me chocou mesmo foi a realidade de tudo e a necessidade admitida de falar com alguem depois do acontecido e nao ter com quem dadas as horas, alguém que todos nós temos sempre disponível, um amigo, família, companheiros... isso, sim, é verdadeiramente chocante: uns breves instantes de solidão equivalente a 100 anos...

clica no play disse...

ó miguel onde anda o teu blog?

miguel soares disse...

O meu blog? Ainda não tive de tempo de o avivar. Aviso-os assim que o tiver feito.